1. Importância e definição
O delirium na UTI é uma síndrome neuropsiquiátrica de início agudo e curso flutuante, com alteração da atenção e do nível de consciência, associada a piores desfechos (tempo de UTI, tempo de ventilação mecânica, mortalidade e declínio funcional).
2. Algumas considerações sobre delirium na UTI
O delirium pode ocorrer em qualquer idade, mas é mais comum em pessoas idosas. Quando aparece em pessoas mais jovens, costuma estar ligado ao uso de fármacos, substâncias psicoativas ou a doença sistêmica grave.
Causas comuns de delirium na UTI incluem:
1) Fármacos. Em especial anticolinérgicos, sedativos, drogas psicoativas e opioides.
2) Infecção.
3) Desidratação e distúrbios metabólicos.
Em cerca de 10 a 20 por cento dos pacientes, não se identifica uma causa única. Em geral há combinação de fatores.
Fatores predisponentes aumentam a vulnerabilidade do cérebro ao delirium. Exemplos: demência, acidente vascular encefálico, doença de Parkinson, idade avançada e déficit sensorial como perda visual ou auditiva. Intoxicação alcoólica e múltiplas comorbidades também aumentam risco.
Fatores precipitantes costumam disparar o quadro durante a internação. Exemplos: infecção, desidratação, choque, hipóxia, anemia, imobilidade, desnutrição, uso de cateter vesical, dor, privação de sono e estresse emocional.
Insuficiência renal ou hepática não reconhecida pode reduzir o metabolismo e a depuração de medicamentos. Isso aumenta risco de toxicidade por fármacos antes bem tolerados e pode precipitar delirium.
Exposição recente à anestesia também aumenta risco, em especial quando foi prolongada e quando houve uso de anticolinérgicos no intraoperatório. No pós-operatório, dor e opioides podem contribuir.
À noite, a redução de estímulos e a desorientação podem disparar delirium em pacientes vulneráveis. Por isso o manejo ambiental e o sono são parte do tratamento.
Em pacientes idosos na UTI, o risco de delirium é particularmente alto. Estado epiléptico não convulsivo é causa sub-reconhecida de alteração do nível de consciência na UTI. Considerar EEG quando o rebaixamento é desproporcional, flutuante ou sem explicação clínica.
3. Identificação e triagem
Avaliar diariamente todos os pacientes internados na UTI para delirium.
3.1. Passo a passo de triagem (RASS → CAM-ICU)
1) Aplicar RASS (Richmond Agitation-Sedation Scale).
- Se RASS -4/-5: sedação profunda, não aplicar CAM-ICU. Rever sedação e reavaliar.
- Se RASS -3 a +4: aplicar CAM-ICU.
2) Aplicar CAM-ICU (Confusion Assessment Method for the ICU).
3) Documentar resultado e tendência (curso flutuante) no prontuário.
3.2. Diagnóstico de delirium no CAM-ICU
Considerar CAM-ICU positivo quando houver: início agudo/curso flutuante e desatenção, associados a pensamento desorganizado ou alteração do nível de consciência.
4. Prevenção
- Ambiente: manter ambiente calmo, iluminação adequada e redução de ruído noturno.
- Sono: promover ciclo sono-vigília (luz de dia, escuro à noite), agrupar cuidados noturnos quando possível.
- Reorientação: orientar sobre hora, data, local e situação; usar relógio/calendário visíveis.
- Hidratação e nutrição: garantir metas e corrigir desidratação e distúrbios metabólicos.
5. Intervenções não farmacológicas
- Estimulação cognitiva: conversa, leitura/TV (quando apropriado), presença de familiar quando possível.
- Mobilização: incentivar mobilização precoce conforme estabilidade clínica.
- Déficits sensoriais: garantir óculos e aparelhos auditivos para quem usa.
- Dor: avaliar e tratar adequadamente (dor mal controlada é gatilho comum).
- Evitar contenção física sempre que possível; quando necessária, reavaliar frequentemente.
6. Intervenções farmacológicas
Medicação não é tratamento de rotina para todo delirium. Indicar principalmente quando há agitação importante com risco à segurança (autoextubação, arrancar dispositivos, agressividade) ou quando impede cuidados essenciais.
6.1. Revisão medicamentosa (sempre)
- Revisar e reduzir, quando possível, drogas que pioram delirium: benzodiazepínicos, anticolinérgicos, opioides em excesso e polifarmácia.
- Investigar e tratar causas precipitantes: hipóxia/hipercapnia, sepse, distúrbios eletrolíticos, retenção urinária, constipação, abstinência, dor e privação de sono.
6.2. Escolha da droga conforme cenário (farmácia disponível)
Drogas disponíveis consideradas neste protocolo:
- Haloperidol (ampola 2 mg)
- Risperidona (comprimido 1 mg)
- Dexmedetomidina (ampola 200 mcg; usual 2 ampolas em SF 100 mL)
- Clorpromazina (comprimidos 25 mg e 100 mg; ampola 25 mg)
- Levomepromazina (gotas 40 mg/mL)
- Diazepam (comprimido e ampola 10 mg) – uso preferencial em abstinência
- Biperideno (comprimido 2 mg; ampola 5 mg) – apenas para reações extrapiramidais
6.3. Haloperidol (1ª linha para delirium hiperativo com risco)
- Dose inicial: 0,5 a 1 mg IV/IM (idoso/frágil: preferir 0,5 mg).
- Repetir 0,5 a 1 mg a cada 20–30 minutos até controlar risco imediato; depois, manter 0,5–1 mg a cada 4–6 horas se necessário.
- Monitorar ECG (risco de prolongamento do QT). Corrigir potássio e magnésio antes e durante uso quando possível.
- Vigiar efeitos extrapiramidais (rigidez, distonia, acatisia).
- Evitar ou usar com muita cautela em doença de Parkinson e demência com corpos de Lewy.
Conduta se reação extrapiramidal (não é rotina)
- Biperideno: usar somente se distonia aguda/rigidez incapacitante por antipsicótico.
- Atenção: anticolinérgicos podem piorar delirium; usar como “antídoto”, não como co-medicação fixa.
- Sugestão prática: biperideno 2 mg VO ou 5 mg IM/IV conforme gravidade e disponibilidade institucional.
6.4. Risperidona (quando VO é possível; manutenção)
- Iniciar: 0,5 a 1 mg VO a cada 12 horas.
- Ajustar conforme resposta clínica e tolerância, com cautela em idosos.
- Monitorar sedação, hipotensão e efeitos extrapiramidais.
- Cautela em prolongamento de QT e em Parkinson/Lewy body.
6.5. Dexmedetomidina (sedação cooperativa, especialmente em VM)
- Indicação preferencial: delirium hiperativo em paciente ventilado mecanicamente ou quando se deseja sedação com possibilidade de interação e menor risco de depressão respiratória.
- Dose: 0,2 a 1,5 mcg/kg/h, titulando por alvo clínico (ex.: RASS).
- Monitorar bradicardia e hipotensão; ajustar conforme PAM e frequência cardíaca.
Diluição usada no serviço e cálculo rápido
- Padrão: 2 ampolas (200 mcg cada) = 400 mcg em SF 100 mL → concentração 4 mcg/mL.
- Cálculo do gotejo: mL/h = (dose mcg/kg/h × peso kg) ÷ 4.
- Exemplo 70 kg: 0,2 mcg/kg/h = 3,5 mL/h; 0,7 mcg/kg/h = 12,25 mL/h; 1,0 mcg/kg/h = 17,5 mL/h.
6.6. Clorpromazina e levomepromazina (resgate; cautela)
As fenotiazinas podem controlar agitação, mas são mais sedativas, hipotensoras e anticolinérgicas. Reservar para situações de resgate/refratariedade, com monitorização hemodinâmica.
Clorpromazina:
- Considerar em agitação refratária quando haloperidol/dexmedetomidina não são viáveis ou foram insuficientes.
- Risco: hipotensão, sedação excessiva, efeitos anticolinérgicos e prolongamento de QT.
Levomepromazina (gotas 40 mg/mL):
- Mais sedativa; pode ser útil como resgate, porém com maior risco de hipotensão e sedação profunda.
- Evitar uso rotineiro em delirium hipoativo e em pacientes com instabilidade hemodinâmica.
6.7. Diazepam (uso preferencial em abstinência)
Benzodiazepínicos não são primeira linha para delirium típico de UTI, pois podem piorar confusão e prolongar sedação. Indicar principalmente em abstinência alcoólica/benzodiazepínica, convulsão ou quando houver clara indicação clínica.
- Se suspeita de abstinência: conduzir com protocolo específico (ex.: titulação por escala clínica quando aplicável).
- Evitar diazepam como sedativo de rotina para delirium sem abstinência.
7. Manejo do delirium (rotina assistencial)
- Monitoramento contínuo: RASS e CAM-ICU diariamente (ou por turno, conforme rotina do serviço).
- Documentar intervenções e resposta (incluindo ajuste de sedação/analgesia).
- Reavaliar necessidade de antipsicótico diariamente e suspender assim que possível.
8. Educação, treinamento e suporte familiar
- Treinar equipe para aplicar RASS e CAM-ICU e reconhecer delirium hipoativo.
- Educar familiares sobre delirium e orientar reorientação simples durante visitas.
- Quando possível, envolver família na reorientação (nome, local, data, reforço de segurança).
Formulário CAM-ICU
Avaliação de Delirium pelo Método CAM-ICU
Paciente: ________________________
Data: ________________________
Hora: ________________________
Avaliador: ________________________
Etapa 1: Nível de Consciência
- ( ) Alerta: Paciente normalmente acordado (passe para a Etapa 2)
- ( ) Desperto e Sonolento: Despertável por voz (chamando) (passe para a Etapa 2)
- ( ) Sonolento ou Não Despertável: Despertável apenas por estímulos físicos ou não despertável (Delirium presente)
Etapa 2: Início Agudo ou Curso Flutuante
- ( ) Sim: Mudança aguda no estado mental ou curso flutuante (passe para a Etapa 3)
- ( ) Não: Sem mudança (Delirium ausente)
Etapa 3: Inatenção
- Teste de Letra-A: Pedir ao paciente para apertar a mão sempre que ouvir a letra “A” na sequência SAVEAHAART:
- Erros: _____ (Contar erros)
- Mais de 2 erros = Inatenção presente (passe para a Etapa 4)
- Menos de 2 erros = Inatenção ausente (Delirium ausente)
Etapa 4: Pensamento Desorganizado
- Questões: Perguntar ao paciente:
- “Uma pedra flutua na água?” (Não)
- “Você tem um martelo em sua mão direita?” (Sim)
- “Um peixe vive na terra?” (Não)
- “Dois quilos são mais pesados que um quilo?” (Sim)
- Respostas incorretas: _____ (Contar respostas incorretas)
- Mais de 1 erro = Pensamento desorganizado presente
- Menos de 1 erro = Pensamento desorganizado ausente
Diagnóstico de Delirium (CAM-ICU positivo)
- Delirium Presente: Se o paciente tiver:
- Alteração no nível de consciência (Etapa 1) E
- Início agudo ou curso flutuante dos sintomas (Etapa 2) E
- Inatenção (Etapa 3) E
- Pensamento desorganizado (Etapa 4) OU Alteração no nível de consciência (Etapa 1).
- ( ) Delirium Presente
- ( ) Delirium Ausente